O ator, que começou na série Girls, trabalha com os melhores diretores “indies” enquanto encarna Kylo Ren, o vilão de Star Wars

Por Gregorio Belinchón // Tradução por Gabriela Silva | Publicação de 16 de dezembro de 2019

Adam Driver em Cannes 2014

Quando Adam Driver (San Diego, 36 anos) se senta diante do jornalista, pensa-se em dois ditos populares: “errar é humano, persistir no erro é tolice” e “tem que se dar nome aos bois”. Sorri, sim, mas com o olhar marca distância. Seu físico, muito contundente, o ajuda a impor respeito. Rirá em algum momento, para surpresa da audiência. Nas entrevistas para a imprensa espanhola durante a apresentação no festival de Cannes do ano passado [NdT: 2018] de O Homem que Matou Dom Quixote, deu mostra do seu jogo de cintura. Durante bate-papo com três jornalistas, uma repórter se levantou e foi embora; ele, sem mudar seu tom monótono nem o rosto sério, improvisou no meio de uma frase: “… e então a atuação, eh, parece que minhas respostas não agradam, acontece…”.

Driver leva as coisas à sério, respeita à interpretação e trabalha de maneira muito disciplinada, asseguram aqueles que o conheceram nas rodagens [NdT: de “Dom Quixote”] na Espanha. Pode ser que já fosse parte de seu caráter ou que se injetara em seu treinamento com os marines, mas essa seriedade com que encara a vida o ajudou a ter o melhor currículo possível no cinema de autor. Hoje, pode-se vê-lo triunfar em História de um Casamento, protagonizando O Relatório, e está a quatro dias [NdT: o lançamento do filme nos EUA aconteceu em 20 de dezembro de 2019] de arrebentar as bilheterias com Star Wars: A Ascensão Skywalker.

O ator não tem nem 10 anos no cinema e já atuou sob às ordens de Steven Soderbergh, Steven Spielberg, Clint Eastwood, os irmãos Coen, Jeff Nichols, Jim Jarmusch – em Paterson e em Os Mortos Não Morrem –, Spike Lee (com seu Infiltrado na Klan conseguiu sua indicação ao Oscar por Melhor Ator Coadjuvante), Martin Scorsese, Terry Gilliam e em quatro filmes de Noah Baumbach: a última foi, precisamente, em História de um Casamento. Se faltava algum selo em sua carteirinha de platina de ator indie, rodou um musical, Annette, com o francês Leos Carax, prepara um filme histórico dirigido por Ridley Scott e escrito por Ben Affleck e Matt Damon, e passou a última primavera [NdT: outono no Brasil] representando na Broadway Burn This, obra que estreou há três décadas protagonizada por John Malkovich, e com a qual Driver foi candidato ao Tony.

E claro, tem seu Kylo Ren, o filho maldito de Star Wars, o vilão torturado por suas dúvidas internas na saga que agora se fecha com A Ascensão Skywalker. “Eu sou um ator muito nova-iorquino”, assegura Driver, que vive no Brooklyn com sua mulher, a também atriz Joanne Tucker, e seu filho. “Luto para manter minha privacidade [não se sabia da existência de seu filho até há alguns meses e apenas por um descuido da irmã de Tucker nas redes sociais]. Meu trabalho é ser um espião, o que implica também ter um vida e acumular experiências. Porém, quando se está constantemente debaixo dos focos, é muito difícil consegui-lo”. Missão cumprida.

Star Wars: The Last Jedi

Muito reservado

Mariela Besuievsky foi a produtora de O Homem que Matou Dom Quixote, de Gilliam. Lembra que Driver viveu três meses na Espanha. “É muito meticuloso, se focou muito em entrar no papel. Tanto que teve pouca relação com parte da equipe, já que estava concentrado em seu trabalho, e se fechava no seu trailer”. Sua família o acompanhou nas semanas de gravação em Navarra. “Driver é muito reservado na sua vida pessoal”, assegura Busuievsky, da Tornasol Films, que também destaca sua insistência em rodar ele mesmo as sequências que incluíam montar à cavalo ou burro ou pilotar uma moto. “Não deixou que nenhum dublê as fizesse, mesmo com os responsáveis pelos efeitos tentando fazê-lo mudar de ideia”.

Do ator destaca sua disciplina em manter-se concentrado em sua personagem e em praticar esporte todos os dias, fosse qual fosse seu plano de filmagem. “Desde já, estava ali a alma do marine. Driver é um exemplo de enorme talento, que se vê na tela”, resume a produtora.

Adam Driver, Scarlett Johansson e Azhy Robertson em História de um Casamento

Contudo, não ia por um bom caminho em 2003, quando em um campo de treinamento com o 81º pelotão do departamento de armas, do primeiro regimento do primeiro batalhão do corpo das Forças Armadas, Driver se deu conta do que estava fazendo ali. Havia se alistado voluntariamente depois do 11 de setembro, por um sentimento de defesa do seu país mais do que por vingança (“Não pus um rosto nos meus inimigos, nem nunca pensei mal dos muçulmanos”), e de repente sentiu que a vida de militar não era o que desejava. “Eu só queria fazer duas coisas: fumar e atuar”, contava em outubro para a The New Yorker, em um artigo que descreve seu rosto como digno de um moai da Ilha de Páscoa.

Havia chegado até esse quartel na Califórnia através de uma viagem de vida tortuosa. Filho de um ministro batista, sua mãe tocava piano na igreja. Se divorciaram quando Adam tinha sete anos e sua mãe Nancy, Adam e sua irmã mais velha se mudaram para a casa dos avós maternos em Mishawaka (Indiana). O ator, que se lembra dessa infância de forma feliz, não voltou muito a ver seu pai, e por isso aceitou seu papel em História de um Casamento: porque seu Charlie se comporta de maneira oposta ao seu progenitor real e luta pela custódia de seu filho.

Em Mishawaka, sua mãe se casou novamente – com o namorado da juventude -, e Adam começou a brincar com a ideia de ser ator. Tanto que se candidatou à prestigiada escola nova-iorquina de Juilliard aos 17 anos, onde foi rejeitado. Decidiu reunir suas economias, lançar-se na estrada e tentar a carreira em Hollywood: durou uma semana, o tempo de suas economias. E chegou o 11/9.

Após três anos entre os marines, foi dispensado depois de um acidente de bicicleta de montanha em que ele quebrou o esterno [NdT: osso localizado no tórax]. Tentou pela segunda vez em Juilliard, onde agora foi aceito. Ao se formar, tomou duas sábias decisões: não se afastar do teatro e aceitar o personagem do namorado instável de Lena Dunham na série da HBO Girls, sua plataforma de lançamento. “Não tenho nenhum plano premeditado. Escolho segundo vão chegando os roteiros. E me guio por esse critério: o cineasta, se sirvo para esse diretor, o roteiro e o elenco”, contava em Cannes.

Pronúncia peculiar

Seu estilo, suas decisões, inclusive seu físico lembram mais a fornada de atores dos anos 1970 como Pacino, De Niro e Hoffman, do que os seus companheiros reais de geração. Também chama a atenção sua pronúncia, muito peculiar, uma mescla de acentos, um tom que seduziu todos os realizadores com quem trabalhou.

Em janeiro, Driver poderá ganhar seu primeiro Globo de Ouro e sua segunda indicação ao Oscar, dessa vez como protagonista, por História de um Casamento. Seu trabalho no cinema mais comercial, em Star Wars: A Ascensão Skywalker, chega às salas de cinema do mundo todo na quinta-feira. Driver odeia ver seus filmes, gosta dos projetos que exigem desafios físicos, e lhe divertiu um detalhe de sua estadia na Espanha: “A equipe espanhola era tão profissional quanto acolhedora, amistosa, como na verdade deveria ser sempre. Vivi em Madri durante a filmagem e, de fato, confirmei que nunca dormia”.

Adam Driver em cena com John David Washington de Infiltrado na Klan, de Spike Lee

*NdT: Nota da Tradutora
[ATENÇÃO]: ESTE ARTIGO NÃO É DE NOSSA AUTORIA, É APENAS UMA TRADUÇÃO PARA UM ARTIGO JÁ PUBLICADO. TODOS OS CRÉDITOS AOS AUTORES! A MATÉRIA ORIGINAL PODE SER ENCONTRADA NO SITE DA EL PAÍS.

Translate