Entrevista de Março de 2015
Tradução por: Cíntia Alves

Como o interesse amoroso de Lena Dunham na série ‘Girls’, o ator Adam Driver representa um novo tipo de homem. Agora, estrelando com Ben Stiller no novo filme de Noah Baumbach, aqui o ex-fuzileiro discute cenas de sexo, a internet e seu grupo de teatro para tropas [de militares].

Adam Driver, 31, é a estrela indicada ao Emmy da série HBO Girls, na qual interpreta o interesse amoroso de Hannah Horvath (Lena Dunham), Adam Sackler. Como Sackler, Driver combina looks memoráveis (corpo de 1,89 m de altura, cabelos negros, rosto de origami humano), com uma intensidade que parece uma raiva interior apocalíptica, uma vulnerabilidade frágil, um brio absurdo, levando muitos a citá-lo como um novo tipo de homem.

Driver foi criado em Mishawaka, Indiana, por uma mãe paralegal e padrasto pastor da igreja batista. Depois do 11 de setembro, ele se juntou aos fuzileiros navais dos EUA, mas antes de ser enviado para o Iraque, quebrou o esterno durante um exercício e foi exonerado. Desde então, Driver fundou a organização sem fins lucrativos Arts in the Armed Forces, que realiza teatro para militares.

Adam Driver conseguiu uma vaga para estudar teatro na Juilliard School de Nova York, onde conheceu a colega Joanne Tucker, com quem se casou em 2013.Ele foi escalado para filmes como Inside Llewyn Davis e Star Wars: O Despertar da Força, de JJ Abrams. Quando falo com Driver por telefone, ele está em Taiwan, filmando o Silêncio de Martin Scorsese, no qual interpreta um padre jesuíta. Seu último filme é a uma comédia de Noah Baumbach, While We’re Young.

Como é ser dirigido por Martin Scorsese?
Surreal. Eu cresci assistindo aos seus filmes. Na minha cultura, em Indiana, eu ia ao Blockbuster Video alugar filmes de Martin Scorsese. Então, trabalhar com ele é bem surreal. De repente, passei de alguém da platéia para me tornar um participante, é bastante emocionante.

Em projetos como Silence e Star Wars, você sente uma “carreira gravitacional” te puxar do indie para o mainstream?
Tive a sorte de fazer coisas nos dois mundos, o que tem sido interessante. Não há um plano definido, ou me sentir puxado para fazer outra coisa senão começar a trabalhar com pessoas realmente boas.

While We’re Young definitivamente tem uma vibe indie.
Eu já havia trabalhado com Noah antes, em Frances Ha. Eu acho que ele é brilhante para caralh*! Eu poderia trabalhar com ele em qualquer coisa. Todos esses grandes diretores, como os irmãos Coen, Scorsese e Noah, obviamente, têm maneiras diferentes de trabalhar, mas são todos específicos – eles sabem qual é a história. Ao mesmo tempo, eles se rendem a não saber quando realmente o fazem. Então eles se surpreendem.

Eles não são rígidos?
É, eles não vêm com um manual de instruções.

Em While We’re Young, um documentarista antiquado mais velho (Ben Stiller) e sua esposa (Naomi Watts) se envolvem com um documentarista mais moderno (Driver) e sua esposa (Amanda Seyfried). A princípio, o casal mais velho sente que pode aprender com o casal mais jovem e descolado, mas depois, isso torna-se uma tarefa árdua. Parece haver uma batalha entre a autenticidade à moda antiga e a cultura da imitação?
Sim, essa é a grande questão do filme. Quando li [o roteiro] pela primeira vez, o personagem com quem mais me identifiquei foi Josh. Eu amo assistir Ben Stiller interpretá-lo, mas também acredito em muito do que ele prega. Acredito em fazer história com algo – não apenas estar conectado à internet, se apropriando das coisas e colocando na história. Mas meu personagem, Jamie, pode pegar essa interconexão e fazer algo muito bom, muito rápido. Ele é inconstante e mesmo que impulsivo, está criando algo, colocando algo para fora. Por essa razão é um bom roteiro. Argumenta muito bem os dois lados.

Você já falou antes sobre como se preocupa com a cultura de satisfação imediata presente na sua geração, especificamente em relação à Internet.
Sim, você tem informações na ponta dos dedos, mas há algo sobre passar por todas as etapas, por mais doloroso que seja o processo. E eu não sou de forma alguma imune – sou completamente suscetível. Acho que estamos quase que interconectados demais, sem ênfase em investir tempo, porque existe uma expectativa na cultura de que as coisas acontecerão imediatamente.

Seu personagem inovador, Adam em Girls, foi amplamente considerado um novo tipo de jovem homem. Inicialmente, você o viu como um menino ou um homem?
Nunca pensei nele como um menino ou como um homem. Eu penso nele em instantes. Eu não acho que ele se considera um menino ou um homem – ele provavelmente pensa em si mesmo como “em processo”.

No início, havia uma energia muito doida em relação a Adam. Recentemente, ele parecia levemente domado – não tanto domando, mas menos selvagem?
Ainda bem que ele mudou. Eu acho que é sobre ele crescer e colocar sua energia em lugares diferentes.

Adam teve algumas cenas explícitas de sexo (dizendo a Hannah que ela tinha 11 anos; urinando nela no chuveiro). Para mim, essas cenas representaram um cansaço entre alguns jovens do sexo masculino – a saturação de pornografia na internet disponível os deixou insensíveis, de modo que tiveram que aumentar o risco erótico para sentir alguma coisa?
Isso não é algo sobre o qual falamos ou sobre o qual tomamos uma decisão consciente. Mas entendo o que você está dizendo.

Alguma vez, as cenas de sexo te deixaram desconfortável?
Não. See fossem cenas sexuais apenas pelo sexo em si, isso me deixaria desconfortável, mas era parte da narrativa que Lena estava procurando.

Você sentiu empatia pela forma como Lena Dunham foi tratada quando Girls começou a ser exibida – as críticas pessoais dirigidas a ela?
Empático? Sempre que um amigo está sendo atacado. Lena é uma mulher adulta e totalmente capaz de lidar com isso, muito melhor do que eu jamais seria capaz. Isso porque ela pensou bem e não está apenas fazendo escolhas arbitrárias. Essa é a grandeza sobre sua escrita – mais uma vez, é específico e não é para todos. Algumas pessoas entendem, outras não. Isso é comum. Ela é mais do que capaz de lidar com isso.

Você se considera feminista?
Não… Bem, sim. Mas eu não penso “eu sou isso” ou “eu sou aquilo”.

Eu li que você se juntou aos fuzileiros navais porque foi dominado por sentimentos de patriotismo depois do 11 de setembro.
Inicialmente, essa era a razão. Depois, você esquece o motivo original para ingressar – se transforma em algo diferente. É sobre servir com o pelotão de pessoas que você aprendeu a amar – servindo-os tanto quanto servindo ao seu país. Você está surpreso com o quão forte você pode se relacionar com um grupo de estranhos. Esse vínculo é uma coisa poderosa – difícil de encontrar no mundo civil.

No momento em que você entrou, parecia que sua vida não estava indo a lugar nenhum?
Não, não estava indo a lugar nenhum. Eu estava trabalhando em um monte de trabalhos esquisitos e morando nos fundos da casa dos meus pais, pagando aluguel.

Quando você foi forçado a deixar os fuzileiros navais, você disse que estava arrasado. Você ainda se sente assim?
Bem, é mais fácil agora, mas no momento eu fiquei muito desapontado por não poder ir para o exterior com os meus garotos. Acho que sempre vou me arrepender disso.

Existe relação entre os fuzileiros navais e atuação?
Claro, grande momento! O pequeno grupo de pessoas tentando cumprir uma missão maior do que elas. Não se trata de uma pessoa; é um esforço colaborativo. Você tem que conhecer o seu papel, e às vezes dentro desse grupo há uma pessoa que sabe qual é a sua missão. Isso é um cruzamento direto. Você não pode agir sozinho em uma sala – ninguém vai ver. Você não pode criar algo sozinho. Você precisa de pessoas para apoiá-lo.

O ímpeto por trás de iniciar sua organização sem fins lucrativos, Arts in the Armed Forces, foi que o pessoal das forças armadas é mais complexo e cultural do que as outras pessoas podem pensar?
Sim – é para levar entretenimento de tropa baseado em teatro cativante para um público que normalmente não estaria associado ao teatro. E obtemos as reações que buscamos. “A maior parte do entretenimento da tropa é tão ruim e isso é tão bom.” “Eu nunca fui a uma peça antes.” “Eu não sabia que o teatro era assim.” As respostas são esmagadoras. Eu recebo uma quantia enorme por isso.

Como você lida com o lado superficial de ser uma celebridade?
Eu não me considero uma celebridade. Existem partes boas e ruins sobre conhecido pelo seu trabalho, então tento manter essa perspectiva. Estou cercado por pessoas que mantêm as coisas o mais reais possíveis.

Você teve uma educação bastante religiosa. Você está bebendo dessa fonte como um padre em Silence?
Fui criado em uma igreja batista no meio-oeste. A religião fez parte da minha educação, então sim.

Você tem fé?
Não, tento não ter a resposta certa sobre nada.

Você se casou em 2013. É importante para você ter estabilidade na vida privada?
Isso não é importante para todo mundo?

Alguns artistas podem preferir a vida selvagem, desestruturada e boêmia possível. Eles podem pensar que é assim que os artistas vivem – misturar tudo?
Bem, você ainda pode misturar tudo na vida de casado.

Que tal ser um símbolo sexual?
[Risos] Não tenho nada a dizer sobre isso.

Você deve ter ouvido antes que você tem um rosto incrível e incomum? É um elogio – não ser o padrão Hollywood McHunk o favoreceu.
Já me disseram que tenho um rosto incomum. Mas meu rosto é meu rosto. Eu tive uma vida inteira antes de atuar, ao longo dos anos. Muitas coisas foram ditas sobre meu rosto.

E quanto aos prêmios e a reação do público em geral – pessoas vindo até você na rua?
No que diz respeito aos prêmios, é uma honra ser homenageado por seus colegas, mas não significa nada. As reações na rua são sempre boas – as pessoas não costumam vir até você e dizer que você é um idiota. De qualquer forma, nunca é uma conversa longa – eles geralmente percebem que tenho mais medo deles do que eles de mim e toda a dinâmica de poder muda.

Qual é o trabalho do ator?
É uma boa pergunta. Eu não sei. Às vezes é um serviço; às vezes parece um negócio; às vezes parece apenas uma narrativa; às vezes parece mais poderoso do que isso.

Diz-se que existem sensibilidades de atuação da costa leste e da costa oeste – você se sente igualmente confortável com as duas?
Eu moro em Nova York e sou muito simpático com a sensibilidade nova-iorquina. Mas eu só quero trabalhar onde a escrita seja boa. A escala ou o orçamento não deve ser onde você coloca sua energia. O tamanho não importa para mim. Você pode trabalhar em algo que é grande, mas não é criativamente desafiador.

Quais são seus planos imediatos?
Depois disso [While We’re Young], estarei trabalhando em Girls novamente, e tudo o que acontecer depois disso, acontecerá. Quanto aos planos, tento não ter um. Espero ter aprendido que ter um plano acaba sendo um desperdício de energia.

[ATENÇÃO]: ESTE ARTIGO NÃO É DE NOSSA AUTORIA, É APENAS UMA TRADUÇÃO PARA UM ARTIGO JÁ PUBLICADO. TODOS OS CRÉDITOS AOS AUTORES! A MATÉRIA ORIGINAL PODE SER ENCONTRADA NO SITE DO THE GUARDIAN.