O queridinho de Girls fala sobre como é atuar ‘fora da caixinha’, Terry Gilliam de ‘O homem que matou Dom Quixote’, e Star Wars: Episódio VIII.

Texto fonte da Anthem Magazine. Tradução por Cíntia Alves.

Adam Driver tem um histórico impressionante e seu papel como o namorado ioiô de Lena Dunham em Girls é apenas parte da história. O ex-fuzileiro naval de 32 anos tem mostrado grande versatilidade ao longo dos anos, saindo de filmes em uma pegada indie para grandes sucessos de bilheteria de Hollywood, o que parece cair como uma luva. Só nos últimos cinco anos, Driver trabalhou sob a direção dos mais notáveis gigantes do cinema, como Steven Spielberg, Clint Eastwood, os irmãos Coen, J.J. Abrams e Jeff Nichols. Agora, ele pode acrescentar Jim Jarmusch a essa lista em expansão com o seu papel titular em Paterson. Na Palma de Ouro de Jarmusch, no Festival de Cannes, Driver interpreta um motorista de ônibus despretensioso, cuja felicidade repousa inteiramente na sua vida estruturada, casamento feliz e poesia.

Os problemas que eu tinha antes de Star Wars ainda estão lá. Ainda estou ciente de que todos nós vamos morrer sozinhos. Quem sabe, Trump poderá ser nosso próximo presidente. (Adam Driver para a Anthem Magazine)

Em nosso último Cannes, o ator discutiu a experiência do tapete vermelho, Star Wars: Episódio VIII, dirigido por Rian Johnson e o próximo longa de Terry Gilliam’s, ‘O homem que matou Dom Quixote‘. O 69º Festival de Cinema de Cannes acontece de 11 a 22 de maio.

Você tem sido muito aberto sobre o fato de que você não assiste aos seus próprios filmes. Você ainda não assistiu Star Wars: O Despertar da Força?
Eu assisti, sim, mas queria vê-lo por causa do filme em si. Além disso, quando você está lutando com bastões 3D, você quer vê-los funcionando. Mas foi um erro assistir ao meu próprio filme. Eu provavelmente tentarei nunca mais fazer isso.

Mas ontem você esteve no tapete vermelho para ‘Paterson’. Você não ficou por lá?
Eu andei no tapete vermelho e fui embora. Disseram-me que seria muito estranho se as luzes subissem e eu não estivesse lá, mas eu saí e depois voltei para o final. Sempre me sinto como se pudesse aguentar me assistir, mas depois que faço isso, são meses de depressão. Você se torna muito consciente de si mesmo.

Isso não é algo problemático? Você não pode assistir a um dos filmes de seu diretor favorito agora.
E é! Mas eu estava lá filmando, então eu gosto do processo. Eu sei o que acontece. Gosto muito mais da ideia de trabalhar com Jim do que de ver o filme. Consegui um lugar na primeira fileira. Acho que me concentraria nos erros se eu assistisse ao filme. Você teria que assistir três ou quatro vezes, de qualquer maneira, para realmente olhar para ele objetivamente e isso é apenas mais um domínio do egoísmo.

Foi muito chocante passar de Kylo Ren para um motorista de ônibus introspectivo em Paterson?
A princípio, não pareceu tão chocante assim. Star Wars era, obviamente, muito grande, mas as coisas de momento para o momento que você encontra nos filmes independentes ainda estavam lá. O catering é melhor em um do que no outro, mas ambos os filmes me pareceram muito independentes.

Como foi dirigir um ônibus pela primeira vez?
Era um curso de três meses para dirigir naquelas duas ou três cenas. Quando há algo físico que eu posso fazer como ator, isso me dá a ilusão de que tenho controle. Eu não queria chegar a um ponto onde eu não sabia o que fazer. Ocorreu-me que Paterson saberia tão bem que as coisas se tornariam apenas um hábito.

Paterson é também um poeta não publicado. Você sabia muito sobre poesia?
Eu era muito ignorante quando se tratava de poesia e não fazia parte da minha educação ou cultura em Indiana. A linguagem não era realmente enfatizada ao crescer. Eu só não entendia o valor da linguagem, até que fui para a escola de teatro. Paterson realmente me abriu para a poesia. Eu não tinha conhecimento de ‘Vinte e Cinco Poemas á Hora do Almoço’, de Frank O’Hara, ou William Carlos Williams. Jim sabia tanto sobre isso que ele foi uma ótima ferramenta de aprendizado.

A vida de seu personagem é definida por suas rotinas diárias. Você se identifica com isso, de alguma forma?
Sou um servo fiel de hábitos, principalmente no que se trata de comida. Estou ciente dos tipos de comida que você deve comer, por isso vou comer isso todos os dias. Se o certo é que se deve comer brócolis ao meio-dia, eu comerei brócolis ao meio-dia todos os dias. Minha esposa é o oposto porque ela é muito inspirada pela vida – não que eu não seja inspirado pela vida – e gosta de experimentar coisas novas.

Temos uma visão de Paterson nos seus dias de Corpo de Fuzileiros Navais no filme. Isso foi tirado de suas experiências pessoais ou foi feito de propósito?
É um retrato real de mim nos meus dias de Corpo de Fuzileiros Navais. Jim não quis explicar isso ao público. Para mim, ele destacou a maneira como as pessoas tendem a colocar os outros em caixas como “este cara é um motorista de ônibus, então não há como ele ser um poeta” ou “esta pessoa é um fuzileiro naval, então não há possibilidade de ela ter qualquer sensibilidade artística”. Eu acho que Jim estava apenas tentando quebrar os estereótipos, o que eu adorava. Sou sempre sensível quando se trata de personagens militares e como as pessoas do exército são retratadas no filme. Paterson é um motorista de ônibus que uma vez foi fuzileiro naval e escreve belas poesias.

Você disse que foi uma decisão patriótica quando se juntou aos fuzileiros navais. Você ainda será patriota se Trump se tornar presidente?
Eu sempre serei patriota. Trump nunca assumirá. Tenho certeza disso.

Essa ideia o assusta?
Claro que assusta! Isso me assusta muito. Também é embaraçoso. De forma alguma acho que é uma representação precisa do que é o ideal americano. É triste. Próxima pergunta…

O que você achou marcante em Jim Jarmusch?
Nunca é demais enfatizar o quanto ele ama as pessoas com quem ele trabalha. Está em seu DNA colaborar. Jim foi o fator mais empolgante que me impulsionou a querer fazer o filme. É raro interpretar alguém cujo objetivo principal é simplesmente observar e ouvir.

A maioria dos diretores não ama os atores com os quais eles trabalham?
Eles nem sempre gostam de mim! Essa não é a minha vivência… Jim é apenas mais evidente, eu acho. Ele é muito engraçado; vê as impressões de todos com quem já trabalhou, como Roberto Benigni e Tom Waits. É uma das coisas mais engraçadas que eu já vi na minha vida.

O próprio Jim Jarmusch pontuou Paterson. Você é fã de Drone Music?
Ouvi pela primeira vez quando estávamos andando no tapete vermelho. Naquele cenário, parecia que estávamos sacrificando um bode ou algo assim. Tenho certeza de que é lindo no filme. Foi estranho caminhar até ele nesse cenário formal. Não tenho dúvidas de que é tudo excelente.

Jim Jarmusch, Star Wars e Girls têm muita relevância na cultura pop. Você está procurando proativamente esse tipo de projeto?
Eu gostaria de ter mais controle. Tenho muita sorte de ter trabalhado com as pessoas com quem trabalhei, mas nunca imaginava que nada disso fosse acontecer. Não tenho outro plano de jogo senão continuar trabalhando com diretores realmente grandes.

A notícia foi divulgada durante Cannes que você assinou oficialmente para ‘O homem que matou Dom Quixote’, de Terry Gilliam. É real?
É real! Eu interpreto Toby, mas isso é tudo o que posso dizer. Ele vem tentando fazer isso há muito tempo.

Você já era um fã de Terry Gilliam?
Ele estava no topo da lista quando se tratava dos diretores com quem eu gostaria de trabalhar. Ele é como “bem, o que você acha?” e eu sou como “eu só estava aqui para que você me dissesse o que eu deveria fazer”.

Star Wars mudou sua vida de uma maneira realmente significativa?
No quesito fama, sim. Esses filmes marcaram gerações. Eu diria que isso torna um pouco difícil de encontrar inspiração, porque seu trabalho como ator é ser um espião, experimentar e falhar, cometer erros e aprender com isso. E aí, de repente, você é aquele que todos estão olhando, é meio difícil desaparecer. Mas, como pessoa, espero que nada tenha mudado. Os problemas que eu tinha antes de Star Wars ainda estão lá. Ainda estou ciente de que todos nós vamos morrer sozinhos. Quem sabe, Trump poderá ser nosso próximo presidente.

O que você pode dizer sobre Star Wars: Episódio VIII?
É semelhante ao ‘O Império Contra-Ataca’; é muito parecido, tem a mesma linguagem, mas leva um tom diferente do primeiro. Eu descreveria o Episódio VIII como estando nessa linha. Rian Johnson é um cineasta tão bom e tão inteligente. O roteiro que ele escreveu é tão apertado e ativo. Eu diria que é mais sombrio, mas é difícil de realmente dizer, já que agora estamos montando o quebra-cabeças.